
Inserida no universo musical desde os 12 anos de idade, a cantora Gabi Melim mergulha em uma nova fase da sua trajetória com o audiovisual “Escapismo”. Após o lançamento do seu primeiro álbum solo “Gabriela” (2024), a artista apresenta um projeto que valoriza a organicidade dos arranjos, enquanto traz à tona um processo pessoal profundo. Ao enfrentar um período de recolhimento e superar duas vezes uma paralisia facial, ela transforma sua experiência em matéria artística, conduzindo o público por um percurso de reencontro, força e sensibilidade.
Em entrevista ao Anota Bahia, Gabi Melim detalhou o processo criativo por trás do álbum que traz temas como liberdade, autoestima, ousadia, relacionamentos e a visão sobre o povo brasileiro. Novas possibilidades sonoras e estéticas são vistas no trabalho, que une a MPB ao samba, pagodão baiano, R&B, baião, dentre tantas outras influências. É um projeto que celebra a coragem de recomeçar e a potência de se reconectar com a própria essência.
Gravado com tecnologia Parallax de Virtual Production, “Escapismo” posiciona a artista como a primeira brasileira a utilizar esse recurso em um projeto do gênero. A direção geral e audiovisual é assinada por Césio Lima, com direção criativa de Duda Beat e direção musical de Kassin, resultando em uma experiência imersiva que combina performance, cenografia digital e sensibilidade artística.
Durante a conversa, Gabi também abordou a importância de se reconectar com si mesma e dar mais atenção ao próprio “eu”, enquanto refletiu sobre seu novo momento após um período de cura de questões emocionais e físicas. A relação com a cultura da Bahia também foi enaltecida pela cantora, assim como, a sua valorização pelo meio orgânico que se fazer música.
A produção do projeto traz performance, cenografia digital e uma linguagem contemporânea, lingado à utilização da tecnologia Parallax de Virtual Production. Como foi o processo por trás de toda essa engrenagem, seja a parte conceitual quanto criativa?
Se eu não me engano, um ano e pouco atrás foi quando eu tive a Paralisia de Bell, uma doença que paralisa o rosto. E tive duas vezes. Foi logo após o lançamento do meu álbum “Gabriela” (2024), meu álbum solo. A gente chegou a começar a turnê, a divulgar as datas, e eu tive que parar por conta desse problema de saúde. Então eu não consegui trabalhar o álbum e, quando eu já estava bem pra voltar, já não era algo inédito.
Então eu comecei a pensar como eu conseguiria contar uma história, mas sem deixar de aproveitar a beleza de “Gabriela”, que era um álbum super brasileiro. O nome até foi escolhido por conta de Jorge Amado e da literatura brasileira. Junto com a galera que trabalha comigo, a gente pensou em trazer esse álbum audiovisual que conta um pouco da minha trajetória através das músicas. Até por isso eu regravei três composições minhas da Melim — “Ouvi Dizer” e “Meu abrigo” apenas no YouTube e “Peça Felicidade” nos streamings.
Pensamos que se a gente trouxesse as composições do “Gabriela” (2024) numa outra roupagem, com participações e terminando nesse terceiro ato que é “Escapismo” com as músicas inéditas, eu conseguiria também abraçar um pouco esse início da minha trajetória solo ali. Então, acho que tudo partiu desse lugar. E daí eu fui construindo as outras camadas. O Césio Lima, que é o diretor responsável por essa estrutura Parallax, tem a maior empresa de iluminação e tecnologia da América Latina. Ele é um cara realmente é muito expert em ser um diretor fantástico, trabalha com a Globo uma vida inteira, com grandes artistas, com Caetano. Então ele é um cara muito vivido dentro desse lugar. E aí quando ele estendeu a mão para colaborar comigo nesse DVD, eu fiquei muito feliz.
Fico muito honrada de poder juntar essa coisa contemporânea com a tecnologia, mas também com o orgânico de músicos tocando ao vivo. Acho que a gente vive uma era de muito beat, coisas muito digitais e elementos digitais. Eu gosto muito de fazer essa junção dos músicos no frescor do ao vivo, da tocada humana, do que é imperfeito, com elementos digitais. É uma junção desses dois lados, e o álbum “Escapismo” permeia por diversas coisas que eu passei e também por enxergar que hoje a gente vive a era do escapismo, né? Eu acho que no pós-pandemia as pessoas sofreram tanto, foi tudo tão sofrido para todo mundo, que eu acho que as pessoas tentam, hoje, escapar um pouco da realidade. Não é como se eu celebrasse o escapismo. É mais como se eu entendesse e acolhesse, e ao mesmo tempo relembrasse que a gente não pode escapar de nós mesmos de alguma forma.
Eu também escapei de mim por diversos momentos, por questões também de saúde que eu passei, por excesso de trabalho, por várias coisas. Então é um álbum que traz muita mensagem. Principalmente esse terceiro ato, que eu acho que eu consigo deixar ainda mais fácil de perceber essa coisa da liberdade, da ousadia, da autoestima, sabe? De você se amar, de você se aceitar, da liberdade feminina, de não se se colocar numa caixa e de lembrar de não escapar de você mesmo. Porque às vezes ficamos buscando fora da gente para não termos que olhar para dentro.
É um álbum que convida você a olhar para dentro de si sem o moralismo, porque eu acho que também é importante ter as fugas, se não a vida fica inconcebível, né? Eu concluo o álbum com “Sou Brasileiro”, que é um pouco da minha visão sobre o povo brasileiro, o povo latino-americano, e como a gente se comporta no mundo. A gente é um povo que trabalha muito, essa coisa do trabalho braçal, o trabalho da força, está muito ligado ao povo latino-americano. Então, acho que é um álbum que ele vai desde de relações e situações pessoais até chegar numa visão macro dessa era que eu chamo do escapismo.
O audiovisual “Escapismo” apresenta faixas inéditas e releituras de sucessos da sua carreira. Esse movimento representa uma expansão da sua identidade como artista, frente a novas possibilidades sonoras e estéticas?
Eu fui emancipada pelos meus pais depois de tanto perturbar que eu queria fazer show. Comecei a compor com 12 ou 13 anos e iniciei a carreia aos 15. Eu acho que tudo o que eu aprendi, artisticamente falando, da minha raiz, vem da música popular brasileira. Embora eu tenha explorado bastante isso na Melim, o álbum diz muito mais sobre o coletivo, sobre os três indivíduos, do que você conseguir se aprofundar 100% nas suas referências. Então eu trago tanto no “Gabriela” (2024), que tem muita brasilidade, mas principalmente nesse terceiro ato de “Escapismo” tem duas canções que são samba de gafieira, e eu vim do samba de raiz. Procuro honrar tudo isso que me fez e me mudou artisticamente.
Eu sempre consumi a música popular brasileira. Então, a gente tem baião, a gente tem ijexá, tem afoxé, tem reggae, enfim, a gente tem um pouco de tudo. É um trabalho que de alguma forma eu celebro as raízes brasileiras, sabe? Acho que a gente é um país muito rico e eu sou eu sou muito patriota no sentido musical assim. Aqui a gente tem os maiores músicos. O Kainã do Jêje, percussionista que gravou tanto “Gabriela” quanto “Escapismo” comigo, ele também, ele é daí de Salvador. Então também essa coisa de eu conseguir trazer músicos de vários lugares para, através do seu instrumento, contar um pouco dessa história, da brasilidade, que é muito importante da gente abraçar. É um resgate também da onde eu vim, sabe?
E também eu tô brincando, tô me divertindo, tô adorando trazer novos ritmos e curtir o processo. Me divertir um pouco com a música e honrar as raízes.
O título do trabalho, “Escapismo”, traz um termo relacionado a uma válvula de escape para nossa mente em momentos difíceis. Dentro do seu pessoal, você passou por momentos que exigiram um processo de cura, tanto por questões emocionais quanto físicas. O que este lançamento e retorno artístico representa para a Gabi de antes e para a que segue a partir de agora?
Você entendeu tudo, você entendeu tudo mesmo. Realmente eu passei por processo difícil de depressão. Gosto de falar abertamente, porque traz informação sobre a doença. Acho que que a gente que é artista, que tem visibilidade, temos um canal importante para trazer informação sobre essas questões. Até poucos anos atrás, ainda em muitos lugares era visto como frescura e tal. Passei realmente por situações difíceis, tanto fisicamente com distúrbio alimentar, tive uma questão que eu quase perdi a vibração da corda vocal e quase perdi a voz em 2020 por excesso de trabalho. Então, esse novo trabalho para mim, Luís, ele representa um reencontro comigo também, sabe? Eu acho que em “Gabriela” (2024) era muito mais eu me apresentando ao mundo e em “Escapismo” (2026) é muito mais sobre voltar para mim.
O trabalho representa o melhor momento que eu estou vivendo, dessa coisa de me reconectar com a minha autoestima que ficou muito abalada com as questões de saúde que eu passei. Eu acho que poder reconectar com a minha liberdade de poder ser o que eu quiser e não me importar se alguém tentar me colocar numa caixa ou se alguém tenta resumir figura feminina a algo que você possa dominar de alguma forma, né? Não é de forma nenhuma um trabalho agressivo ou cínico. É muito mais sobre a liberdade, sobre o encontro.
Para mim é conseguir tornar, em canção, toda a minha experiência desses anos até agora. Trazer uma mensagem que pode empoderar outras pessoas e a mulher. Não quero fazer música de coitada, quero fazer música de mulher fodona. Eu quero mesmo que as pessoas ouçam e que as pessoas que se identificam com o feminino se sintam empoderadas, forte e busquem esse autoconhecimento. Às vezes é necessário escapar, é saudável, mas a gente também saber voltar. É muito importante também não deixar com que outras relações, outras trocas, façam a gente esquecer da gente para tentar caber no outro, para tentar ser aceito a qualquer custo.
Em meio à um momento de vários estímulos, pressões e ansiedade que vivemos, você constantemente traz temas como autocuidado, autoestima feminina, vaidade e relações. Como você define o que realmente precisa ser dito em uma música sua? Existe um cuidado maior hoje em relação à mensagem, à identificação com o público ou até ao momento da sua vida pessoal?
Eu acho que é mais sobre refletir o momento que eu estou vivendo. Eu não sou uma pessoa muito estratégica assim, tipo: “vou fazer isso pra conseguir isso”. Eu sou uma artista que eu quase vomito quando aquilo está me sufocando, eu boto pra fora, mas eu sou muito preciosista. Isso é uma coisa na minha vida assim, enquanto eu falo que perfeição não existe e nesse álbum eu abraço muito mais as minhas falhas. E de alguma forma eu busco trazer esses temas. Isso vem naturalmente, a partir da minha vivência, da minha maneira de ver o mundo, de enxergar o outro. Não só de me enxergar, mas também de enxergar o outro.
Como eu sou uma pessoa que me coloco fora da zona de conforto, eu vivo minha vida normal, eu vou no mercado, eu tenho amizade de todos os lugares, de várias idades. Então acho que essa troca também molda muito meu olhar e isso acaba sendo traduzido nas canções também. Mas ainda que às vezes surja um tema, ou uma ideia, ou um sentimento, ou uma sensação na hora de fazer a canção, eu construo aquilo com a minha forma de compor. Tem composição que vem muito rápido e tem composição que a gente demora mais. Por exemplo, a própria “Escapismo”, que leva o nome do álbum que vai ser lançado com a Luísa Sonza no dia 24 de julho, é uma composição solo minha que eu abordo situações que eu passei de relacionamentos abusivos, de uma maneira geral.
Me lembro que achava que a música já estava pronta, mas um dia no avião bateu uma ideia de uma parte C, e fiz. Então, às vezes eu começo e termino a música em um dia, às vezes eu faço um pedaço e termino depois. Por exemplo, a ideia do refrão de “Tu Me Olha” eu já tinha desde 2020. Agora também reflete muito com a mensagem que eu quero passar, sabe? Através da minha arte, do meu trabalho.
Em “Vícios de Carnaval” você mostra uma influência do pagodão e referências a Salvador. A percussão aparece novamente bem marcada em “Sou Brasileiro”, com elementos latinos e afro, além de mais uma alusão a Bahia. Qual sua relação com a música baiana e como foi esse processo de trazer essas vertentes para o seu estilo?
Eu amo a Bahia. Acho que Salvador, por ser a cidade mais preta fora da África, tem muitos elementos rítmicos de matrizes africanas. E como eu tenho Kainã Do Jêje ali comigo no processo do álbum, tudo influencia. Por exemplo, a própria “Vícios de Carnaval” era outro arranjo, eu não estava gostando dela. Mostrei uma música que eu gosto e falei pro Kainã: “eu gosto da alegria dessa música, da cor dessa música”. E foi a partir daí que ele sugeriu esse pagodão. Então é uma coisa colaborativa com artistas daí de Salvador.
Eu acredito que os maiores músicos do Brasil saem realmente da Bahia. Caetano, Gal, Gil, enfim, a gente tem uma pluralidade de artistas que até hoje ainda moldam a cultura do Brasil. Realmente a Bahia é muito rica. Seria uma se uma lástima fechar os olhos e não absorver o tanto de riqueza que nasce desse solo de vocês. Eu admiro muito mesmo assim, e é um estado que eu já tive oportunidade de cantar em várias cidades. Acho lindo a sua cultura, rica, maravilhosa, que começa da culinária e permeia a dança, a capoeira.
Alguns artistas que colaboram comigo que também são daí, né? Tem um compositor, daí que é parceiro de várias canções do “Espacismo” (2026) e do “Gabriela” (2024), que é o Tenison Del Rey, que é meu irmão, meu amigo. Então também tem um pouco dessa troca das minhas colaborações e da minha grande e profunda admiração pela Bahia. Eu sou muito apaixonada pelos artistas e por tudo que que venha do solo de vocês.
As colaborações entre artistas de diferentes estilos têm se tornado cada vez mais frequentes dentro do cenário musical, promovendo uma união entre diversos ritmos e estilos. Como você enxerga esse movimento e de que forma isso está contribuindo ao seu processo criativo de composição?
Acho que a boa parte do avanço dessa globalização é a gente conseguir se conectar mais com pessoas de outros estados. Parece que o mundo ele encolhe um pouquinho, fica um pouco mais próximo. Isso é muito bom no sentido dessas trocas, né? Tem composições que é nascem a partir de mim ou a partir de de algo muito pessoal, mas tem vezes que parte de algo mais colaborativo. Isso enriquece a gente. Me lembro de compor com Bruno Berle, de Alagoas, eu estava chegando em uma linha para o refrão e ele deu a ideia de modular, que ficou tão rico. É tão bom poder trocar com grandes artistas. Eu só chamo para colaborar com quem eu admiro muito, quem eu sou realmente fã. É muito bom poder colaborar e também se enriquecer um pouco, a partir da troca com artistas de outros lugares. Isso é valioso.
Cultura é uma coisa que você não desaprende, é uma coisa que você só se alimenta mais. Eu acho que isso só te engrandece como pessoa, como artista também e como manifesto, porque acho que eu consigo manifestar com muito mais riqueza através do meu trabalho, com as trocas, com as vivências. Acho que também por ter sido uma mocinha que sempre consumiu música popular brasileira, isso sempre foi inserido em mim. Não só samba, mas também a música que nasce de outros estados, de outros solos.
Eu sempre fui uma pessoa bem eclética, muito curiosa e aberta ao novo e a outros ritmos. Como eu tenho 31 anos agora, apesar dessa carinha de jovem, há 15 anos que eu vivo de música e antes disso sempre fui conectada à música brasileira de diferentes lugares. Isso já é parte de mim, sabe? É uma coisa muito natural, não é uma coisa estratégica ou pensada. Tipo, isso já nasce no meu trabalho a partir do que me educou é musicalmente.
E como está sua relação com a música ao vivo, feita de forma orgânica?
Torna tudo muito mais real. Acho que o grande sucesso da Melim foi é o fato da gente ter feito muito show. A gente realmente fez muito, uma média de 25 shows por mês. É muito trabalho. Foi exaustivo demais. Em contrapartida, acho que que isso nos aproximou muito das pessoas e a gente esteve nos lugares e você cria um vínculo diferente. A pessoa que ouve seu álbum tem um tipo de sensação. A pessoa ir ao seu show, ela vai ter outro tipo de sensação. Quando ela se se identifica e gosta do seu trabalho, sinto que ela se conecta muito mais no show. Às vezes você escutando um disco, você sente isso mais de uma forma mais supérflua, talvez. Acho que você se aprofunda muito mais quando você vai no show.
O palco tem essa coisa do corpo, essa coisa da linguagem corporal, da troca, da presença, né, de você realmente estar ali inteira, não enquadrada num corte. Foi muito difícil para mim também viver os momentos que eu tive que me afastar. Acho que a paralisia, de alguma forma, me fez olhar um pouco mais também para dentro. Ter que me afastar do palco foi algo que me gerou sofrimento pra caramba. Mas como eu mesmo falo, o caos vem antes de coisas grandiosas. Então eu realmente estou muito feliz e realizada de estar lançando esse álbum audiovisual, sabe? É uma coisa que me dá muita alegria. Acho que meu propósito no mundo é fazer música, acho que é para isso que eu vim.
