
Voz cada vez mais consolidada no samba contemporâneo, a cantora e compositora Karinah construiu seu nome com uma interpretação potente e um respeito profundo pela tradição do gênero. Desde o início da carreira profissional, sua musicalidade chamou atenção de referências como Dona Ivone Lara, Jorge Aragão e Arlindo Cruz que se tornaram parceiros e apoiadores de sua caminhada. Com trajetória na música iniciada ainda adolescente, se apresentando em bares e bandas de baile, a artista já passou por programas de TV e abriu shows para grandes artistas.
Entre 2007 e 2008, mudou-se para Salvador, onde estudou na Academia de Música da Bahia (AMBAH) por incentivo de Letieres Leite, experiência que aprofundou sua formação e consolidou sua conexão com as raízes do samba e da música popular brasileira. Sua relação com o samba ainda se estende ao Carnaval, festa na qual Karinah já puxou samba na avenida, é compositora de samba-enredo e tem ligação intensa com as escolas de samba. Musa da Mangueira e presença marcante nos desfiles da Beija-Flor, vive o Carnaval como extensão natural de sua arte.
Em entrevista ao Anota Bahia, Karinah falou de todos esses temas importantes em sua carreira, discorreu sobre os detalhes da sua programação e planos para 2026, além de apresentar seu novo single ‘Ripiei’, já disponível nas plataformas digitais. A composição é assinada por Carlinhos Brown, em parceria com André Lima, enquanto o samba recebe nuances de afoxé e se abre para uma sonoridade conduzida por sopros em alta energia, cavaco e percussão da tradição carioca.
– “Ripiei” chega com uma energia muito solar, misturando samba e afoxé. Em que momento da sua trajetória artística essa canção te encontra e o que te fez sentir, desde o início, que ela era uma música para você interpretar?
Desde a primeira vez que eu ouvi Ripiei, eu tive a certeza que tinha muito a ver comigo. O Brown é um dos maiores compositores da nossa música e desde o meu primeiro álbum eu tenho privilégio de gravar músicas dele. Ripiei chega em pleno verão e eu tô muito feliz com a ótima repercussão que ela já teve no lançamento.
– A parceria com Carlinhos Brown carrega um peso simbólico enorme dentro da música brasileira. Como foi receber uma composição assinada por ele e por André Lima e que tipo de responsabilidade você sente ao dar voz a essa letra?
O Brown é um gênio, além de um parceiro generoso e sensível. Ele poderia até ter gravado “Ripiei”, mas me deu a música de presente, o que aumentou ainda mais a minha responsabilidade.
– Além do Brown, a faixa reúne nomes fundamentais como Pretinho da Serrinha na produção e Pedro Baby na guitarra. Como foi esse encontro de universos musicais e de que forma essas trocas influenciaram o resultado final de “Ripiei”?
“Ripiei” é o encontro do Rio com a Bahia, e isso aconteceu de forma muito natural em cada etapa dessa gravação. Eu só tive feras ao meu lado, e poder contar com a maestria da produção e dos arranjos do Pretinho da Serrinha, somada a um time de músicos da pesada aqui do Rio e, claro, ao swing inconfundível da guitarra do Pedro Baby, foi especial demais. Foi uma gravação muito especial e, acima de tudo, muito abençoada.
– O clipe foi gravado em Salvador, cidade que também faz parte da sua formação artística, já que você morou lá para estudar música na AMBAH. O que Salvador representa para você hoje, tanto no plano pessoal quanto no criativo?
Morei em Salvador por dois anos, estudei na AMBAH e tive a honra e o privilégio de ter Letieres Leite não só como amigo, mas também como meu diretor musical. Salvador respira música, e a Bahia é um verdadeiro celeiro de músicos incríveis. O baiano é extremamente musical. Ter vivido na Bahia fez toda a diferença na minha formação como artista e também como pessoa. A Bahia é tudo de bom.
– Você costuma afirmar que ser intérprete é a sua forma de existir na música. Como você enxerga hoje o papel da intérprete no samba contemporâneo, especialmente em um cenário que dialoga com tradição e inovação?
Respeitar as tradições dos nossos ancestrais, a nossa ancestralidade, é o que mais me faz ter certeza de que estou no caminho certo. A gente precisa beber da fonte certa, daquela com a qual mais se identifica, sabe? Isso tem sido fundamental na minha caminhada e no som que eu faço. Como diz o samba do Paulinho da Viola, “quando penso no futuro, não esqueço meu passado”. É por aí.
– Sua carreira é marcada por um profundo respeito à história do samba, mas também por projetos que ampliam essa linguagem, como “Aglomerou” e “Meu Samba”. Como você equilibra a reverência às raízes com a necessidade de renovação do gênero?
A renovação é algo natural e espontâneo, e comigo não foi diferente. Eu gosto de música boa, de compositores talentosos, e isso, pra mim, é o mais valioso na hora de criar novos trabalhos. Me cercar de gente boa me dá a segurança que eu preciso para construir projetos que me orgulham. E isso tem acontecido em todos os meus últimos álbuns, em todos os meus projetos. Graças a Deus.
– O Carnaval atravessa sua trajetória de várias maneiras: como cantora, compositora, musa e personagem de projetos audiovisuais. O que o Carnaval representa para você atualmente, enquanto artista e enquanto mulher do samba? E o que você traz de novidade para esse carnaval? Fale um pouco da sua agenda para 2026.
O Carnaval já começou para mim. Estou a mil por hora entre ensaios técnicos da minha escola amada, ensaio de rua, ensaio de canto. A Mangueira é uma escolha que vem desde a infância, é um lugar onde sou recebida com muito carinho e respeito pela comunidade, onde tenho a honra de ser uma das musas. Vou cantar no Carnaval do Rio e também estarei em Salvador, em um trio muito especial, ainda sem poder revelar muitos detalhes. O Carnaval é tudo de bom na minha vida. Amo desde criança, faz parte de quem eu sou, está em mim, como uma célula. Carnaval é tudo de bom.
– “Ripiei” carrega esse espírito de encontro, corpo, festa e coletividade, algo que o próprio Carlinhos Brown destaca ao falar da canção. Você acredita que o samba segue sendo um espaço potente de comunhão e resistência no Brasil de hoje?
Com certeza, o samba é resistência, mas também é celebração, festa e reflexão. É a linguagem mais sincera e direta do povo brasileiro. O samba é o grande cronista do nosso dia a dia. É sobre isso.
– Depois de um ciclo tão intenso, com lançamentos importantes, grandes parcerias e projetos que reafirmam sua maturidade artística, o que você sente que mudou em você como artista nos últimos anos?
Acho que amadureci muito com meus últimos trabalhos. Tive a honra de participar de mais de 30 shows da turnê de 50 anos da Alcione, pelo Brasil afora, e isso foi uma grande escola para mim. Meu último álbum, Meu Samba, teve a direção artística do Zeca Pagodinho e eu estive rodeada de compositores maravilhosos, pessoas incríveis que ele carrega no coração há mais de 40 anos. Você não imagina o quanto aprendi convivendo com esses ícones do samba, que sempre foram meus ídolos. Foram aulas diárias. Hoje me sinto muito realizada e profundamente abençoada.
– Olhando para 2026, o que você pode adiantar sobre os próximos passos da sua carreira? Há novos projetos, sonoridades ou desejos criativos que já começam a se desenhar?
No momento, estou muito focada no lançamento de Ripiei. No início do ano, também vem aí o clipe, que foi gravado no Rio e em Salvador, um trabalho lindo demais. Em 2026, vou gravar meu primeiro audiovisual solo, o que me deixa com uma expectativa enorme e muito positiva para o que vem pela frente. Só posso dizer que vai dar samba.
*Entrevista realizada pela repórter Carol Araújo.

