
No ano que será celebrado o centenário de nascimento de Ariano Suassuna, uma nova montagem do clássico “Auto da Compadecida” fará uma grande excursão europeia, passando por Lisboa, Porto, Dublin, Berlim, Paris, Milão, Londres, Bruxelas e Barcelona. À frente da direção artística estará o diretor baiano Fábio Tavares, responsável pela montagem do Centro Cultural Ensaio e por comandar a excursão internacional em 2027.
A excursão europeia ganha um significado especialmente simbólico quando colocada em perspectiva com a própria trajetória de Ariano Suassuna. O escritor paraibano, um dos mais importantes nomes da literatura e da dramaturgia brasileiras, nunca saiu do Brasil. Ele construiu sua obra a partir de uma profunda valorização da cultura brasileira, especialmente das tradições populares nordestinas, e defendia a necessidade de reconhecer a riqueza cultural existente no próprio Brasil.
Após dez anos de sua morte, uma de suas obras mais brasileiras fará exatamente o percurso que seu autor nunca fez: atravessará o oceano para encontrar espectadores em diferentes países europeus. A iniciativa leva ao Velho Continente uma obra que nasceu da combinação entre a tradição popular nordestina, a literatura de cordel, o teatro religioso medieval, a comédia popular e a dramaturgia brasileira.
A montagem do Centro Cultural Ensaio propõe uma leitura criativa e contemporânea do texto de Suassuna. Em sua encenação, a narrativa começa pelo desfecho, com os personagens já no céu, para então reconstruir os acontecimentos que os levaram até aquele momento. O procedimento dramatúrgico amplia o potencial cômico da história e oferece novas perspectivas sobre João Grilo e Chicó, preservando a essência da obra original.
Para Fábio Tavares, a excursão representa também uma oportunidade de apresentar uma dramaturgia brasileira fora do país sem abrir mão de sua identidade cultural. Em vez de adaptar Suassuna para torná-lo estrangeiro, a proposta parte justamente da força de sua brasilidade.
A força de “Auto da Compadecida” está justamente em sua capacidade de partir de elementos profundamente brasileiros e, ao mesmo tempo, estabelecer uma comunicação universal. João Grilo e Chicó enfrentam a pobreza, a autoridade, a morte, a injustiça e as contradições humanas utilizando aquilo que possuem de mais poderoso: a inteligência, o humor e a capacidade de sobreviver.

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