
Às vésperas de completar 25 edições, a Lavagem de Madeleine, considerada uma das maiores celebrações da cultura afro-brasileira na Europa, terá uma mudança importante em sua programação. A tradicional lavagem das escadarias da Igreja de La Madeleine, em Paris, não poderá ser realizada neste ano. Segundo a organização, o veto foi comunicado pelo pároco do templo, Monsenhor Patrick Chauvet.
O ritual acontece no local há mais de duas décadas e está na origem do próprio nome da celebração, criada em Paris em 2002 por Robertinho Chaves e inspirada na Lavagem do Bonfim, em Salvador. A cerimônia reúne baianas vestidas de branco, água de cheiro, flores, música e referências do catolicismo e das religiões de matriz africana, em uma manifestação marcada pelo diálogo entre diferentes culturas e tradições religiosas.
“Lamentamos muito não poder realizar neste ano a lavagem das escadarias da Igreja de La Madeleine como fazemos há mais de duas décadas. Essa cerimônia faz parte da nossa história e da relação que construímos com Paris”, afirma Robertinho Chaves, idealizador do evento. Segundo ele, a organização permanece aberta ao diálogo com a Igreja.
O reconhecimento da manifestação ultrapassa a dimensão simbólica. Desde 2022, a Lavagem de Madeleine está inscrita no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da França, no âmbito do Ministério da Cultura francês. A documentação oficial registra a cerimônia diante da Igreja de La Madeleine, incluindo a participação de representantes do catolicismo e das religiões de matriz africana. A celebração também integra o calendário cultural de Paris e conta com apoio da Prefeitura da capital francesa.
Mesmo com o impedimento, o ritual será mantido em outro espaço. No dia 13 de setembro, a cerimônia será realizada em praça pública, preservando a programação da 25ª edição. A partir das 10h, a Place de la République receberá Mariene de Castro e Robertinho Chaves à frente do tradicional trio elétrico, com participações de Jau, Gildaa e Lorena Pires.
Mais de 700 artistas devem ocupar as ruas de Paris ao longo da celebração, que terá samba, percussão, maracatu, capoeira e a presença das baianas. A cantora lírica brasileira Lorena Pires, artista residente da Academia da Ópera Nacional de Paris desde 2025, também deverá interpretar “Ave Maria” durante a programação.
Ao longo de sua trajetória, a Lavagem de Madeleine já recebeu nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown, Preta Gil e Olodum. A festa se consolidou como um ponto de encontro entre brasileiros, franceses, imigrantes e pessoas de diferentes origens e religiões.
Para Robertinho, a mudança de local não altera o propósito da celebração. “A cultura afro-brasileira já atravessou séculos de resistência e continuará resistindo. Não vamos permitir que uma decisão como essa apague nossa fé, nossa ancestralidade ou nossa cultura”, afirma.
A edição deste ano acontece ainda em um momento de aproximação cultural entre Brasil e França, que celebraram em 2025 o Ano Cultural Brasil-França e um acordo de cooperação na área cultural. Em Paris, a Lavagem de Madeleine seguirá ocupando as ruas para celebrar a cultura afro-brasileira, a ancestralidade, a diversidade religiosa e a união entre os povos.

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