
Após uma temporada com mais de 70 mil visitantes na capital paulista, a exposição “Atlântico Sertão” desembarca no Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória, com mais de 80 artistas de diferentes regiões apresentando, através da arte contemporânea, o sertão brasileiro como espaço de resistência e produção artística.
Por meio de pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e instalações, os artistas se debruçam sobre o Atlântico, historicamente marcado pelos deslocamentos forçados e pela violência colonial, e sobre o sertão, frequentemente associado a um espaço isolado e à marginalização. Na exposição, esses territórios são revisitados como espaços de criação, circulação de saberes, resistência e defesa dos direitos humanos.
A maioria dos artistas é originária das regiões Norte e Nordeste, incluindo comunidades afrodescendentes e indígenas. Dos baianos, estão Adenor Gondim, Alê Siqueira, Ayrson Heráclito, George Teles, J. Cunha, Juraci Dórea, Leonardo França, Lita Cerqueira, Lucélia Maciel, Marcos da Matta, Márvila Araújo, Nádia Taquary, Rose Afefé, Bysmarke Vaqueiro, Ventura Profana, Yacunã Tuxá, Zé di Cabeça, Zumví Arquivo Afro Fotográfico e Àwọn arákùnrin oníṣẹ́-ọnà mẹ́ta.
Idealizada pela mestra e doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Marina Maciel, a mostra tem curadoria de Marcelo Campos, curador-chefe do Museu de Arte do Rio (MAR), em parceria com Ariana Nuala, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade. A exposição transforma a arte em instrumento de memória e elaboração crítica, em diálogo com os conceitos simbólicos de “Atlântico” e “Sertão”.
Núcleos curatoriais
Estruturada em seis eixos, a mostra reúne diferentes perspectivas curatoriais que, juntas, constroem uma leitura múltipla e contemporânea do sertão como território vivo, colorido e atravessado por dimensões históricas, espirituais, políticas e ambientais.
No texto “Sertão Atlântico”, do curador Marcelo Campos, evidencia-se que a exposição parte da relação entre terra e mar para abordar heranças indígenas, africanas e populares. Em Cosmologias em Movimento, analisadas pela curadora Rita Vênus, os destaques são as práticas espirituais como formas de organização da vida e de leitura do mundo.
Em “Ecologias Ancestrais e Futuros da Terra”, de Amanda Rezende, o sertão é apresentado como um campo de conhecimento ancestral que resiste a lógicas externas e projeta possibilidades de continuidade.
A dimensão coletiva ganha centralidade em “Comunidade, Retomada e Sertões Negros”, sob a perspectiva da curadora Thayná Trindade, os modos de vida baseados na partilha, na oralidade e na memória. Em “Arquivos Vivos, Grafias e Inscrições da Terra”, a curadora Ariana Nuala propõe o sertão como um sistema ativo de registro, no qual inscrições ancestrais dialogam com tecnologias contemporâneas e novas formas de arquivo.
Encerrando o percurso, “Travessias e Poeiras que Vêm do Saara”, de Jean Carlos Azuos, amplia a perspectiva ao conectar Brasil e África por meio de relações geológicas, históricas e culturais. O núcleo evidencia fluxos de pessoas e saberes que atravessam o Atlântico, reforçando a ideia de que o sertão é também um território de circulação e permanência, onde diferentes tempos e geografias seguem em diálogo.
A exposição Atlântico Sertão foi selecionada no Edital CCBB 2026-2027 e viabilizada por meio da Lei Rouanet. O projeto conta com o apoio da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores (IGR/MRE) e do Museu de Arte do Rio (MAR). A mostra é uma iniciativa do Coletivo Atlântico, que se inicia no campo teórico, com a pesquisa de Marina Maciel, e parte para a prática ao focar em ações concretas de transformação por meio de intervenções artísticas.




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