
Jornalista, escritor, professor e pesquisador, Fernando Morgado é uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre mídia, comunicação e inteligência de negócios. Autor de diversos livros sobre radiodifusão, marketing e transformação digital, ele desenvolveu o conceito de “adição midiática”, que defende que os meios de comunicação não se substituem, mas se complementam em um ecossistema cada vez mais amplo. No próximo dia 30 de junho, ele estará em Salvador para ministrar a palestra “Mídia profissional: credibilidade, força e soberania”, durante o lançamento da MIDIACOM Bahia. Nesta entrevista, Morgado analisa os desafios da comunicação, o papel estratégico da mídia profissional e o futuro do rádio e da televisão. Confira!
Sua palestra tem como tema “Mídia profissional: credibilidade, força e soberania”. O que esses três conceitos representam hoje para os veículos de comunicação?
Representam o peso que a comunicação feita com responsabilidade, por profissionais capacitados para tal, exerce na sociedade atual. O mercado de mídia está no centro de uma disputa que vai muito além de pontos de audiência. Envolve o dinheiro dos anunciantes e a capacidade do país decidir por si mesmo como deseja estruturar sua comunicação de massa. Nesse sentido, o rádio e a TV aberta, as duas mídias mais democráticas que existem, cumprem um papel estratégico na integração cultural e no desenvolvimento econômico e social da Bahia e do Brasil.
Em um cenário marcado pela disseminação de notícias falsas e pela sobrecarga de informações, qual é o papel da mídia profissional na construção de uma sociedade bem informada?
Os veículos profissionais são luzes na penumbra. O volume gigantesco e descontrolado de mentira que circula nas plataformas das big techs impacta diretamente as decisões que o povo toma no seu dia a dia, da vacina ao voto. Estamos falando de escolhas que impactam, de forma concreta, a vida de cada baiano e brasileiro. Quando a sociedade se informa por veículos profissionais, com marcas reconhecidas e relevância histórica consolidada, ela pode tomar melhores decisões.
Como os veículos de rádio e televisão têm se adaptado às mudanças nos hábitos de consumo de conteúdo sem perder a credibilidade?
Recentemente lancei o conceito de adição midiática. Ele descreve o cenário de comunicação atual: um ambiente marcado pelo acúmulo de meios, e não pela substituição. Esse acúmulo é caótico e dinâmico, como é cada vez mais caótica e dinâmica a vida das pessoas. Para se adaptar a isso, rádios e TVs expandem suas fronteiras de atuação o tempo todo, operando em todas as plataformas existentes, lançando novos produtos e indo muito além de seus meios originais. Uma rádio vai muito além do dial, assim como uma TV vai muito além do sinal aberto. Trata-se de um verdadeiro ecossistema. E todas as partes desse sistema são conectadas pela marca dos veículos, sustentadas pelo que esses nomes representam na mente e no coração do público. Esse significado é reforçado pelo trabalho constante e diligente de produção de conteúdo de alto nível, seja ele artístico ou jornalístico.
Muitas pessoas associam a transformação digital ao enfraquecimento dos meios tradicionais. Na sua avaliação, o rádio e a TV continuam relevantes?
Mais do que continuar, rádio e TV são relevantes. Nunca deixaram de ser e nunca deixarão de ser, inclusive na Bahia. As empresas de radiodifusão são as maiores empregadoras de jornalistas e radialistas profissionais e, dentro do audiovisual, são as que mais contribuem para o PIB e as que mais pagam impostos. Além disso, concentram os maiores índices de audiência em áudio e vídeo e recebem bilhões de reais em investimento publicitário. Trata-se, portanto, de uma relevância não apenas editorial, mas econômica e social.
Quais são os principais desafios enfrentados atualmente pela mídia profissional no Brasil?
As constantes transformações tecnológicas desafiam o setor de forma permanente. Mas elas seriam mais facilmente enfrentadas se fosse corrigida a assimetria regulatória existente entre a radiodifusão e as big techs. Além disso, é preciso combater algo absurdo e esdrúxulo: plataformas online que se dizem líderes de mercado tomando como base apenas os dados que elas próprias criam, sem qualquer conferência externa. Para enfrentar esse cenário, é preciso fortalecer a mídia profissional e suas entidades representativas, como a MIDIACOM Bahia, e ao mesmo tempo qualificar o mercado para a importância de pesquisas independentes e dados auditados.
Como a credibilidade pode se tornar um diferencial competitivo para os veículos de comunicação?
A credibilidade é a base de tudo. É ela que atrai e, sobretudo, retém a audiência. E isso vale não apenas para o jornalismo, mas também para o entretenimento. Trata-se de um conceito muito próximo ao de confiança, ainda que não sejam sinônimos. A confiança ajuda a explicar a relação de proximidade que o público brasileiro mantém com o rádio e a televisão. No campo comercial, a credibilidade também é decisiva: ela sustenta acordos de negócios sólidos, permitindo que agências e anunciantes atinjam os resultados que desejam.
O que iniciativas como a MIDIACOM Bahia representam para o fortalecimento institucional do setor de comunicação?
A Bahia é um dos estados mais importantes para o Brasil não apenas do ponto de vista econômico e social, mas também comunicacional e cultural. Poucos lugares têm um soft power tão grande quanto a Bahia. Era preciso que a comunicação baiana, notadamente a radiodifusão, tivesse uma representação à altura de toda essa importância e que ainda representasse esse setor de forma integrada, considerando inclusive todas as demais mídias para além do rádio e da TV aberta. Trata-se de um movimento que coloca a Bahia em sintonia com o que já ocorre em outros estados que contam com MIDIACOM.
A nova entidade nasce reunindo mais de 30 emissoras de rádio e TV da Bahia. Qual é a importância da atuação coletiva do setor?
Quando o setor se une e se organiza, ele ganha densidade institucional, amplia sua força política e passa a ter ainda mais capacidade de avançar. Além disso, a atuação coletiva permite enfrentar de forma coordenada os desafios regulatórios e econômicos do mercado, fortalecendo a mídia profissional como um todo e reduzindo assimetrias que hoje são evidentes.
Como entidades representativas, como a MIDIACOM Bahia, podem contribuir para ampliar o reconhecimento da importância econômica e social da radiodifusão?
Uma das funções mais importantes de entidades como a MIDIACOM é qualificar o debate público, fornecendo insumos para a melhoria contínua dos ambientes regulatório e de negócios. Isso se dá, por exemplo, pela difusão de informações que demonstram o enorme impacto econômico e social da mídia profissional, além do fato de essas empresas ativarem, por meio de seus espaços publicitários, o agronegócio, o comércio, a indústria e diversos outros setores. A publicidade é um dos maiores propulsores do desenvolvimento econômico de qualquer estado ou país.
Qual a importância dos veículos locais para a produção de informação de qualidade e para o fortalecimento da democracia?
Veículos locais operam na vida real. Eles cobrem o que realmente importa para comunidades, cidades e regiões, com uma proximidade que ninguém consegue copiar. Isso fortalece a circulação de informação confiável, reduzindo o espaço para o caos e as mentiras. No campo democrático, cumprem um papel essencial de vigilância e ampliação do debate público, levantando pautas relevantes e dando voz a diferentes segmentos sociais.
Quais tendências devem impactar a mídia profissional nos próximos anos?
Volto à minha ideia de adição midiática. Acredito que a maior tendência será o aprofundamento dela. O cenário não caminha para substituição de meios, mas para um acúmulo ainda mais intenso de plataformas, formatos e pontos de contato com o público. Nesse contexto, a atenção da audiência se tornará ainda mais dispersa e, ao mesmo tempo, disputada, o que exigirá consistência editorial e de marca de todos os players. Ao mesmo tempo, crescerá a valorização de marcas confiáveis em meio ao avanço de empresas tecnológicas que, não raro, atuam escondidas em algoritmos sem rosto e sem CPF.
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