
Com a chegada da Páscoa, principal período de consumo de chocolate no país, o cacau volta ao centro do debate econômico e produtivo. Em entrevista ao Anota Bahia, o empresário baiano Marco Lessa analisa os desafios e oportunidades do setor, especialmente para a Bahia, estado historicamente ligado à cultura cacaueira. Criador do Chocolat Festival e do Origem Week, Lessa defende uma reestruturação da cadeia produtiva com foco na valorização dos pequenos agricultores e na transição do Brasil de exportador de commodity para referência internacional em cacau fino, qualidade e sustentabilidade. Nascido em Guanambi e radicado em Ilhéus desde a adolescência, o empresário iniciou sua trajetória nos anos 1990, período marcado pela crise da vassoura-de-bruxa. Formado em Publicidade, participou da produção local da novela Renascer, ambientada nas fazendas cacaueiras do sul da Bahia. Em 2009, realizou a primeira edição do Chocolat Festival, hoje considerado o maior evento do segmento na América Latina, e atualmente lidera missões internacionais voltadas à valorização da origem e da sustentabilidade do cacau brasileiro. Confira!
A Páscoa é o período mais relevante para o setor de chocolates. Qual é o impacto dessa sazonalidade para a economia da Bahia, especialmente para o pólo cacaueiro do sul do estado?
A Páscoa começa quase um ano antes, quando as empresas desenvolvem formulações, reeditam produtos, criam embalagens e definem composições. Para empresas de todos os portes, pequenas, médias e grandes, o planejamento é antecipado. Na Bahia, há um setor expressivo de pequenos empreendedores, microprodutores e agricultores familiares que produzem ovos, tabletes e bombons a partir da amêndoa de cacau. Para eles, o impacto é significativo. Além disso, a data movimenta outros segmentos da economia. Especificamente no chocolate, há um aumento expressivo do consumo, sendo a Páscoa o principal período do ano, seguida pelo Natal.
Bahia e Pará concentram mais de 80% da produção brasileira de cacau. Como o senhor avalia hoje o posicionamento da Bahia nesse cenário competitivo? O estado ainda lidera em influência e qualidade?
Bahia e Pará concentram mais de 90% da produção nacional. A Bahia perdeu participação ao longo dos últimos 30 anos, especialmente após a crise da vassoura-de-bruxa e com o crescimento do Pará, mas ainda disputa a liderança. A produção brasileira, somando cerca de 24 estados que já cultivam cacau, ainda é inferior à demanda da indústria. Ou seja, há mais procura do que oferta. A Bahia possui ativos importantes, como sua história com o cacau, a cultura regional fortalecida por livros, novelas e pela imagem de Ilhéus, além do sistema cabruca, modelo de cultivo sob a copa das árvores com preservação ambiental. No Pará, o cultivo ocorre na floresta amazônica, com forte apelo ambiental e mercadológico, inclusive por ser a região de origem do cacau.
O aumento global no preço do cacau tem sido destaque no mercado. Como essa valorização impacta diretamente os produtores do sul da Bahia? Isso representa mais oportunidade ou mais risco?
Nos últimos 15 anos, o cacau se estabilizou entre 2.500 e 3.000 dólares por tonelada. Em determinado momento recente, chegou a 12 mil dólares, gerando entusiasmo no mercado. No entanto, o preço da commodity não garante qualidade de vida ao produtor rural, dos quais cerca de 98% são pequenos e agricultores familiares. Preços baixos não cobrem os altos custos de produção, como mão de obra, insumos e combate a pragas. Por outro lado, picos muito elevados também podem gerar instabilidade. Como o cacau é commodity e depende do mercado externo, é necessário estabelecer um preço mínimo e reduzir a dependência do modelo puramente exportador, garantindo condições dignas ao produtor.
A Bahia já viveu o auge e uma crise profunda na cacauicultura com a vassoura-de-bruxa. O que mudou estruturalmente desde então? O estado está hoje mais preparado para enfrentar oscilações de mercado?
Na década de 1960, o Brasil era o maior produtor mundial. No fim dos anos 1980, a produção caiu de 400 mil para 90 mil toneladas com a vassoura-de-bruxa. Foram cerca de 20 anos marcados por crise, endividamento e estagnação. Até hoje não existe cura para a praga. O que foi desenvolvido são variedades resistentes, que permitem produtividade mesmo com a presença do fungo. É necessário reavaliar toda a cadeia produtiva, não apenas a questão do preço. Há concentração no setor de moagem e estratégias de importação que impactam o produtor. É preciso equilibrar essa relação dentro da cadeia.

O senhor defende que o Brasil precisa deixar de ser apenas exportador de commodity. A Bahia tem vocação natural para liderar essa transformação rumo ao cacau fino e sustentável?
O Brasil precisa mudar porque a capacidade de processamento é superior à produção. Se a demanda continuar crescendo, será necessário ampliar a oferta. Não faz sentido ter oferta menor que a demanda e preços que não garantem dignidade ao produtor. Sem renda adequada, não há investimento, sucessão familiar ou diversificação com turismo e outras atividades. Defende-se que o cacau deixe de ser tratado apenas como commodity, que haja preço justo e liberdade de mercado para desenvolvimento da propriedade. É necessário ampliar a concorrência no processamento e estimular a fabricação de chocolate a partir de amêndoas de qualidade, com remuneração diferenciada. A Bahia reúne condições logísticas favoráveis e concentra o maior número de marcas bean-to-bar do país. Pode liderar esse movimento, mas é importante que outras regiões também avancem.
Grande parte da produção baiana envolve pequenos produtores. Como inserir essa base produtiva em uma cadeia mais rentável, com certificação, rastreabilidade e acesso a mercados internacionais?
Entre 95% e 98% dos produtores são pequenos e agricultores familiares, que precisam de apoio. O primeiro passo é a organização em associações e cooperativas, fortalecendo a representação junto ao setor público e demais atores da cadeia. São necessárias linhas de crédito acessíveis, com juros subsidiados, carência e garantia de preço mínimo. Também é fundamental avançar na compensação por ativos ambientais. O mercado externo já remunera certificação e rastreabilidade, mas é preciso maior promoção internacional, planejamento e investimento, ampliando a presença em feiras e missões comerciais.
O Chocolat Festival nasceu na Bahia e hoje é referência na América Latina. Qual o papel estratégico do evento na consolidação da Bahia como destino internacional do chocolate e do turismo de experiência?
Criado em 2009, o Chocolat Festival surgiu como estratégia de transformação estrutural da cadeia do cacau e do chocolate após décadas de crise. O objetivo foi estimular a verticalização e a agregação de valor. O evento trouxe ao Brasil grandes nomes da chocolateria mundial, chefs, jornalistas e produtores, promovendo intercâmbio e visibilidade internacional. Desde então, mais de 400 marcas de chocolate surgiram no país, muitas premiadas no exterior. Foram criadas iniciativas como a Estrada do Chocolate e missões internacionais, além da Casa Cacau do Brasil em Portugal. O festival contribuiu para o fortalecimento do turismo de experiência, para a valorização do cacau como protagonista e para a transformação econômica e social da região.
O sul da Bahia pode voltar a ser símbolo mundial do cacau, agora com foco em qualidade e sustentabilidade? O que precisa acontecer nos próximos anos para que isso se concretize?
É necessário pensar a cacauicultura no longo prazo, com planejamento estruturado e preparação do mercado consumidor para valorizar chocolate de alto teor de cacau e coprodutos de qualidade. São necessárias ações coordenadas, como apoio ao produtor, regras de mercado, linhas de crédito, estímulo à industrialização, campanhas de educação para o consumo e presença constante em feiras e eventos internacionais. Com planejamento, investimento e articulação, o sul da Bahia pode consolidar-se novamente como referência mundial em cacau sustentável e de excelência.

