
Jornalista, apresentadora, escritora e mãe. São muitas facetas que constituem Rita Batista, que se tornou um dos maiores nomes da comunicação da atualidade, ocupando espaços de destaque em diversos meios e veículos do país, a exemplo da TV Globo. Em constante ponte aérea entre a sua base, Salvador, e outros polos, como Rio de Janeiro e São Paulo, ela colhe os frutos da sua credibilidade: integrando mais uma edição do Festival Negritudes Globo, na capital baiana, e completando três anos na apresentação do ‘É de Casa‘.
Enquanto isso, vive o sucesso do seu livro ‘A vida é um presente – Mantras para o seu dia a dia’, que além de interagir com as pílulas que publica em suas redes sociais, ganhou uma versão em audiolivro, disponível na plataforma Audible. Em entrevista exclusiva ao Anota Bahia, Rita falou sobre o lançamento do seu audiolivro, a relação entre autoaceitação e autoconhecimento, sua carreira e a importância de celebrar o percurso.
Durante a produção do livro e audiolivro, teve algum momento da ‘escrita’ ser dolorosa? Algum mantra teve um peso maior por te remeter a um momento difícil/delicado?
Não, é justamente o contrário. O meu processo de escrita, de reunião dos mantras, de fazer os mantras — mesmo que seja um momento desafiador que eu esteja passando, delicado, doloroso — é de alívio, é de consolo, é de acalanto, de carinho e de chamego, entende? Então, como eu costumo dizer: cada palavra é uma sentença para o universo. Cada sílaba, cada consoante e cada vogal faz uma diferença quando a gente fala acreditando, quando a gente professa aquilo que é dito. Quando a gente consegue vislumbrar o próximo nível, a próxima situação, que é diferente daquela que a gente está vivendo e que naquele momento é agradável ou desafiadora. Quando eu abro minhas redes sociais, eu sempre pergunto, eu sempre cumprimento, mais do que uma saudação é um desejo mesmo. ‘Bom dia, que a abundância entre na sua vida de maneiras surpreendentes, milagrosas. E aí tudo odara? Já bebeu água hoje?’. E nem sempre tá tudo odara comigo, mas eu sei que no que a gente coloca energia é o que aumenta, é o que se agiganta. Então se eu continuar vivenciando, experienciando aquele momento ruim, aquela situação, enfim, desagradável, ela só vai aumentar. O foco não é no problema, é na solução. Nunca houve um momento difícil, é tudo fácil, tudo vem a mim com facilidade, alegria e glória, esse é o mantra da Barra de Access.
Com o audiolivro os mantras podem ecoar dentro do ouvinte pelas ondas. Como surgiu a ideia de contar os mantras por locução e como você avalia as abordagens e impactos da leitura e escuta?
O audiolivro eu acho que é uma necessidade, porque assim a gente consegue, de fato, contemplar todas as pessoas, as pessoas com deficiência. O mantra é uma repetição e tem essa força, tem esse poder. Houve uma egrégora que o repetiu, né, mantras que são milenares, daquele mesmo jeito, com aquela entonação, com aquela intenção, com esse desejo de que aquelas palavras se concretizem. Então acho importante falar, acho importante que esteja em áudio, sabe? Que isso se documente com a minha voz. Foi através da minha voz que as pessoas conheceram também, com o podcast ‘Tudo Odara’, na própria rede social. Veio o convite da Audible e imediatamente eu quis fazer. Eu acho que tem essas duas características, né? De acessos, de potencializar o que o livro traz. E a melodia, né? A voz, a intenção que a gente coloca, que a gente carrega quando você entoa um mantra. Então, isso também faz a diferença para quem está ouvindo e que vai fazer o seu momento.
Os mantras ajudam as pessoas a expandir sua consciência e permitir que a abundância e prosperidade. Como você vê essa relação da sua escrita com o leitor/ouvinte?
Tem uma coisa que é acreditar, eu sou uma pessoa que acredito. Então eu tenho certeza, eu sou um exemplo vivo que essa expansão de consciência nos dá a permissão para viver as coisas que acreditamos é possível. Não é nesse tempo Cronos, esse tempo cronológico, esse tempo que a gente está acreditando. Eu não estou falando também de uma toxicidade nessa positividade. Como eu acredito que pensar grande e pensar pequeno dá o mesmo trabalho, pensar positivo e pensar negativo dá ao meu trabalho, então por que não optarmos por pensarmos positivo e extrapolarmos, né? Por exemplo, a Barra de Access nos sugere que perguntemos ao universo: ‘Universo, o que eu ainda não percebi, vislumbrei. O que é mais possível, dentro da impossibilidade?’. E você joga, a vida é boomerang. Você joga essa energia e continua fazendo o seu. Não fique sentado, esperando, deitado eternamente em berço esplêndido. Não, você vai fazendo as suas coisas, porque esse plano aqui, a materialidade existe e a gente precisa recorrer aos recursos que temos, mas não se distanciar do que acredita, do que sonha, do que cocria, do que pensa.
Eu tento fazer com a minha escrita e com a minha fala um exercício do que eu sou, dizendo para as pessoas: ‘se aconteceu comigo, se acontece comigo, pode acontecer com você’. E pode acontecer com você muito mais, porque aí, enfim, depende do seu merecimento, depende das coisas que você está fazendo, depende da sorte, do destino, enfim, das compreensões. Se eu estou no engarrafamento, atrasada pra um compromisso, e de repente a polícia de trânsito abre uma via alternativa, para mim aquilo é um milagre, eu sou a mulher mais sortuda do mundo, eu vou chegar no horário certo no meu compromisso, não vou atrasar a vida de ninguém, vou cumprir a minha agenda e não vou ficar parada no engarrafamento, sabe?
Então os milagres cotidianos também precisam ser celebrados, porque destes serão edificados os grandes milagres. ‘Ah, eu quero uma casa no campo, quero uma casa na praia’. Você ainda não tem nem a sua casa da cidade, você ainda tá pagando o seu aluguel, se isso não for dispendioso pra você, né, enfim, estou citando aqui um exemplo. Vai pensando, vai imaginando, vai consumindo isso. Não invejando o que é dos outros, mas admirando, sentindo a brisa. Quando você for para a praia, por exemplo, fecha os olhos, entra, mergulha e imagine que ali atrás, atravessando a rua, está a sua casa. Entende? É divertido. É divertido. Dá certo, na maioria das vezes.
Nos mantras você compartilha aprendizado e autocuidados, promovendo um autoconhecimento. Nesse aspecto, muitos entendem autoaceitação e autoconhecimento como sinônimos, já outras entendem como dois pilares que se complementam. Qual a sua visão?
A autoaceitação e autoconhecimento eu acho que é exatamente como você colocou, são pilares que se complementam. Quando a gente entende que o nosso lugar de existência e de certeza somos nós mesmos — mente, corpo e espírito —, eu acho que isso fica muito mais palpável, e aí sim, a gente parte do autoconhecimento para a autoaceitação. A gente para de se comparar, a gente para de achar sobre os outros, a gente para de usar os outros como parâmetro para as nossas vidas, para as nossas existências, para o nosso exercício de viver, e a gente se aceita. Tem um mantra inclusive que diz: ‘eu me amo profundamente, eu me aceito completamente’.
Por mais que você esteja nesse momento de não se aceitar ainda, você vai descobrindo as suas potencialidades e você vai se firmando nelas. Não é um exercício egóico, não estou falando disso. A gente vive em sociedade e é bom que a gente se relacione com as outras pessoas, mas é principalmente de cada um cuidar do seu. Sabe aquela história? Cada um cuida da sua vida e o mundo melhora? Então, eu acho que às vezes, principalmente nessa sociedade que é imagética e de um consumo exacerbado de interesse pelo que o outro tem, pelo que o outro vive, como o outro pensaria ou discursaria ou se comportaria sobre aquilo, não estou dizendo que a pessoa não pode ter referências, não é isso, mas é importante que saibamos quem nós somos, que nos reconheçamos para que nos aceitemos e assim vivamos melhor. Eu acredito piamente nisso.
Mais uma vez você estará entre as apresentadoras do Festival Negritudes Globo, em Salvador, que este ano será realizado na véspera do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Como é para você participar de um evento que reúne tantas potências da cultura afro-brasileira, ainda mais um dia antes de uma data tão importante?
Ah, o Negritudes é um marcador. O Negritudes já está no calendário nacional, a expectativa é das maiores sempre e tem se expandido. Começou no Rio de Janeiro, já foi para São Paulo, já foi para Salvador. E Salvador já entrou no calendário fixo, a primeira edição foi no ano passado e não seria diferente, a gente não iria decepcionar porque a gente sabe fazer as coisas. Então o público de Salvador, o calor, o sabor do Negritudes em Salvador é muito, muito especial. Eu acho que esse ano a gente tem essa possibilidade de celebrar as mulheres negras e latino-americanas e caribenhas nesse evento que é grandioso, que mostra e marca o quanto o grupo Globo, que está comemorando 100 anos, a TV Globo com 60 anos, está intimamente antenada com os anseios da sociedade, com a diversidade, com o que é de mais importante nas políticas étnico-raciais e nas ações afirmativas, que é dar voz a quem foi silenciado. Falar das suas narrativas a partir da sua experiência, da sua vivência, não sendo contado por outrem. Então, ter domínio sobre as suas próprias histórias. E vai ser lindo!
Você está completando três anos no ‘É de Casa’. Durante todo esse tempo, quais foram os maiores aprendizados que o programa te deu, e quais você julga os mais importantes que você deu ao público que assiste?
O ‘É de Casa’ é uma delícia. Esse é um grupo coeso, que se dá bem, que funciona no ar e fora do ar, porque eu acho que isso é importante também, sabe? As pessoas não precisam ser íntimas, amigas para sempre, mas elas precisam se respeitar. E no ‘É de Casa’ a gente sabe disso, a gente sabe o tamanho de cada um e a gente sabe a função de cada um. Então Maria Beltrão é a nossa âncora, a minha fortaleza, o meu esteio, como não poderia ser diferente, né? [Ela tem] mais de 30 anos de TV Globo, experiência no Hard News, vinda da GloboNews para a TV aberta, no entretenimento, com uma bagagem de vida e técnica que sabe todas as coisas e mais um pouco. Então, ela rege muito bem, como uma maestrina, a nossa apresentação. Tiago, Talitha também com seus saberes. Tiago que vem do esporte então mata no peito e faz gol o tempo todo, comandando aquela churrasqueira. Um homem negro que cozinha que é pai que fala dos assuntos que fazem interseção com essa brasilidade toda, esse povo que constrói, que conserta. Talitha também com o ‘Vivo Verde’, que é um sucesso total, estrondoso. O quanto as pessoas gostam da jardinagem e de fazerem as suas peripécias com os espécimes da flora brasileira, além das curiosidades que o quadro traz e a expertise dela na cozinha.
E eu, que faço essa interseção com todos os meus colegas e suas áreas de atuação, e que tenho esse canal mais fluido com o público. Eu sou essa pessoa que ainda saio do estúdio, que faço os quadros, que experimento os quadros, ou que, mesmo dentro do estúdio, recebo as demandas das pessoas através dos quadros que desenvolvo. Agora a gente está no ar com o ‘É Pra Poupar’, que fala sobre a economia doméstica, que é uma área muito minha. E estou sempre ali ‘futucando’ a cozinha, ‘fotucando’ a churrasqueira, dando pitaco na jardinagem, e na parceria com Maria Beltrão. Quando a gente se junta, o riso está garantido. E também o bate-bola dessas questões mais editoriais e que também têm fronteira com o jornalismo. Apesar de a gente ser do entretenimento, mas viemos do jornalismo. Acho que a minha contribuição é bem essa, de estar ali no meio e fazendo o bate-bola com todos eles e sem esquecer da minha matriz, da minha raiz, que é serviço, que é jornalismo, que é entrega de um entretenimento com propósito e lembrando as pessoas que apesar da gente estar se divertindo, as agruras do cotidiano não deixam de existir e que se a gente tiver possibilidade de falar disso com leveza, nós faremos. Eu principalmente.
Já consolidada na comunicação, você já disse que sempre continua sonhando em novas metas e objetivos. Nesse processo, qual a importância de se admirar o percurso dessa caminhada?
Ah, eu continuo. É aquilo que eu falei há pouco, né? De sonhar, de prospectar, de imaginar. A gente está vivo. Nesse intervalo entre o nascimento e a morte, a gente precisa estabelecer mesmo o que nos faz feliz. E na minha profissão muitas coisas me fazem feliz. E eu tenho certeza, que se eu puder expandir ainda mais, outras tantas me farão feliz. O meu ofício tem esse compromisso de comunicar com o público, de municiar as pessoas de informação, de fazer com que as pessoas sejam autônomas, reconhecendo os seus direitos e entendendo seus deveres. Eu tenho um trato com a democracia, com o Estado Democrático de Direito, com a liberdade de imprensa. Então tudo isso é minha arma, é minha fortaleza, meu escudo. A palavra tem esse poder, né? E nós de comunicação sabemos disso, e pelo menos o meu intuito, é utilizar da melhor maneira possível para que mais e mais pessoas tenham todos esses acessos que este poder nos dá.
Como é ser mais um nome negro, da Bahia e do Nordeste em destaque na mídia nacional, em um horário ‘da família’, e qual a representatividade disso?
É um grande prazer, uma grande responsabilidade, mas lembrando sempre que eu não sou a única, não serei a única, e quero que mais e mais pessoas negras, nas mais variadas áreas, nas mais diversas ambiências, tenham também os seus destaques pelos seus talentos, pelos seus ofícios, pelas suas profissões, pela contribuição que podem trazer ao mundo. Eu sou uma entusiasta disso. Tentaram fazer isso conosco, de repente, quando chegássemos em alguns lugares, em lugares de destaque, já basta. Já tem um ali ou um ali, não precisa de mais. E, às vezes, tentar com que caiamos nessa cilada de acharmos que somos negros únicos e somos muito especiais. Não, somos só representantes. Então, são os princípios acima das personalidades, eu não me perco disso, para não me perder no meu caminho.

