
Em quase dois meses de visitação, a exposição “Meu Brasil Interior — Mãos que Tecem o Futuro”, da artista popular alagoana Roxinha Lisboa, atingiu a marca de quase mil visitantes na CAIXA Cultural Salvador. Disponível até 22 de novembro, a mostra propõe um deslocamento de olhar que sai da paisagem e entra no trabalho ao investigar as mãos de Roxinha, as mesmas que pintam, que criam e sustentam a casa. O feminino, o ofício e a transformação social ganham corpo narrativo nos espaços.
Um dos núcleos que mais retém o público é “Hoje Acordei Linda”, espaço que celebra a maturidade, o reconhecimento e o orgulho de si. O título vem de uma das telas mais comentadas da mostra e sintetiza o que Roxinha Lisboa faz com rara habilidade: devolver às mulheres o direito de se enxergarem bonitas, sem filtro e sem condição.
“A gente tem referências de beleza tão inalcançáveis que nunca nada na gente tá bom. E ela simplesmente chega e diz: hoje eu acordei linda. É isso que as pessoas se encantam. É a simplicidade”, conta o curador Luciano Midlej.
A co-curadora Jinny Lim concebeu para Salvador cinco núcleos exclusivos: O Despertar, O Tecido da Existência, Hoje Acordei Linda, O Sagrado Ordinário e O Eco do Diálogo — onde o público é convidado a escrever cartas e integrar a conversa que a exposição propõe.
Roxinha nasceu em Lagoa de Pedra, no sertão de Alagoas, onde vive até hoje. Trabalhou em diferentes ofícios antes de se reconhecer como artista. Começou a pintar na maturidade, inspirada pela filha, e encontrou na arte popular uma forma de registrar lembranças, afetos e o cotidiano sertanejo.
Suas telas marcadas por cores intensas, figuras humanas, festas, religiosidade e paisagens do interior, a tornaram um dos nomes mais expressivos da arte naïf contemporânea brasileira. “Minhas mãos sempre souberam fazer. Antes de pintar, elas já carregavam o mundo. Quando descobri a pintura, entendi que era a mesma coisa — só que agora com cor”, destaca Roxinha Lisboa.
Impacto das obras
A trajetória de Roxinha Lisboa no mercado de arte tem em Luciano Midlej um capítulo fundamental. O galerista baiano, fundador da Midlej Galeria de Arte em Salvador, investiu anos divulgando o trabalho da artista — e foi esse movimento que colocou o nome dela na rota certa. “Quando a CAIXA foi procurar sobre ela, caiu em mim. Por quê? Porque eu divulgo muito ela”, conta Midlej. “Foi um trabalho que eu estava fazendo, de alguma forma, e chegamos aqui. Estamos juntos”, disse.
Para Luciano Midlej, Roxinha Lisboa preencheu um espaço que o mercado de arte não sabia que estava vazio. “Ela pinta um agente de saúde fazendo o trabalho dele do jardim de casa”, descreve. “Uma coisa tão simples — e é exatamente isso que faltava”. Os colecionadores que adquirem suas obras vêm majoritariamente de São Paulo e Rio de Janeiro, mas a identificação transcende a geografia: é o Brasil cotidiano, íntimo e poético que Roxinha captura em cores vivas e textos manuscritos que atravessa qualquer fronteira.


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