
Salvador acaba de ganhar um novo conjunto de murais artísticos no entorno do BRT do Itaigara. As obras estão concluídas e entregues à população, transformando espaços de passagem em pontos de contemplação, memória, beleza e pertencimento. A intervenção reúne trabalhos de artistas muralistas com diferentes linguagens e técnicas: Felipe Alaído, Zana Nacola, Isa Muriá, Thiago Tupinambá, Niiny e Thays Eunice, com a participação de artistas assistentes durante o processo de pintura.
O conceito curatorial “Arte como Respiro: Territórios em Fluxo” parte da compreensão de que as cidades são formadas por encontros, deslocamentos, memórias e diferentes modos de existir. Nesse contexto, a arte pública pode desacelerar o olhar, despertar novas percepções e ressignificar a relação das pessoas com a paisagem urbana.
No Itaigara, o circuito dialoga com a memória ancestral presente no próprio nome do bairro, associado à expressão “canoa de pedra”, com raízes na língua tupi-guarani. A canoa representa travessia, movimento e conexão, enquanto a pedra remete à firmeza, à permanência e à resistência. Mais um exemplo de como Salvador guarda, nos seus bairros, marcas profundas da presença indígena na sua história e toponímia.
A partir desse ponto de partida, cada artista desenvolveu uma interpretação própria sobre Salvador, abordando temas como ancestralidade, natureza, diversidade, relações humanas, cotidiano, memória e pertencimento. Cor, memória, ancestralidade e imaginação passam a integrar o caminho de quem atravessa a região, contribuindo para uma cidade mais humana, sensível, diversa e acolhedora.
A artista visual, ilustradora e muralista baiana Zana Nacola, natural de Salvador, apresenta a obra “Rede Mãe”, que celebra a força das conexões entre mulheres, realizada em um mural de 70m². A obra também celebra a potência das mulheres descendentes daquelas que sobreviveram à travessia atlântica e fizeram da resistência uma herança compartilhada.
Com mais de 80 metros quadrados, o mural “Cotidiano em Movimento”, do artista Felipe Alaído, apresenta um retrato ilustrado da diversidade, dos encontros e dos deslocamentos que dão vida ao Itaigara. Personagens e histórias se cruzam na composição, revelando um bairro construído diariamente pelas pessoas que vivem, trabalham e circulam pela região.
Os artistas Isa Muriá e Thiago Tupinambá, em uma conexão entre Bahia e Pará, assinam a obra “Mãos Indígenas”, realizada em um mural com mais 80 metros quadrados de extensão, com assistência de pintura de Suck. A obra chama atenção para a escravização de pessoas indígenas e para sua posterior utilização como mão de obra barata nos processos de construção e urbanização das cidades.
Em “Onde a Vida Resiste”, Niiny Santos aborda a relação entre vida, água, território e resistência a partir do Rio Camarajipe. Com 80 metros quadrados, o graffiti reúne figuras humanas, ancestrais, crianças, pescadores, animais, vegetação e palafitas, construindo uma narrativa sobre a riqueza da vida no território e as transformações provocadas pela poluição, pela ocupação urbana e pela especulação imobiliária.
Thays Eunice apresenta “Cuide-se”, obra que aborda o afeto, a cura, os sonhos, a identidade cultural, a natureza e os modos de viver em Salvador. Com elementos do cotidiano e imagens que convidam à contemplação e à reflexão, o mural propõe um olhar sensível para a vida na cidade e para o cuidado. A artista contou com a assistência de pintura de Cala e Acredite.
A intervenção contribui para a valorização do espaço público, para a democratização do acesso à arte e para o reconhecimento da presença indígena como parte viva, contemporânea e fundamental da formação cultural brasileira. Realizado pela Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos, e pela Trevo Produções, a obra integra o novo Circuito de Murais do BRT, com curadoria e concepção do Projeto MURAL – Movimento Urbano de Arte Livre.



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