“Padê Onã – Encontrar Caminhos”. Foto: Daniel Cerqueira

O artista visual Sandro Aiyê inaugura, nesta quinta-feira (30), a exposição ‘Padê Onã – Encontrar Caminhos’, na qual reúne sete esculturas de grandes dimensões em madeira de demolição no Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (MUNCAB). A mostra se estrutura a partir da materialidade e da presença, inscrevendo no espaço figuras que operam no campo da escultura contemporânea a partir de referências negras. As obras partem de madeiras marcadas pelo uso, reorganizadas em estruturas verticais que tensionam equilíbrio, escala e permanência.

A matéria não é neutralizada e suas marcas permanecem visíveis, incorporadas à construção formal. O trabalho se dá na articulação entre transformação e continuidade, produzindo uma leitura em que memória e matéria operam no presente. “Existe um interesse em trabalhar com aquilo que já carrega história, mas sem fixar essa leitura. O trabalho é reorganizar essa matéria para que ela produza outras presenças”, afirma Sandro Aiyê.

Longe de uma leitura restrita ao campo religioso, a exposição mobiliza Exu como um princípio de articulação ligado ao movimento, à mediação e à abertura de caminhos. Sua presença opera no plano simbólico e cultural, organizando relações entre obra, espaço e circulação. Ao situar essas figuras no campo da escultura contemporânea, em escala ampliada e em relação direta com o público, a mostra desloca leituras estigmatizadas e reinscreve essas referências em um lugar de centralidade.

O título da exposição aponta para esse movimento. “Padê” é mobilizado como gesto inaugural, associado à criação de condições para o início e a circulação. “Onã”, palavra de origem iorubá, significa caminho. A união dos dois termos indica a abertura de percursos e a construção de possibilidades no espaço. Para os curadores Jamile Coelho e Jil Soares, a exposição se organiza a partir da relação direta entre corpo, obra e ambiente. “As esculturas não operam como objetos isolados. Elas estruturam o espaço e exigem deslocamento, construindo leitura a partir da presença”, afirma Coelho.

A mostra é apresentada no Jardim das Esculturas, novo espaço a céu aberto do MUNCAB, instalado em uma área que abrigou uma Delegacia de Jogos e Costumes, historicamente associada à repressão de práticas culturais negras. A ocupação do espaço desloca esse histórico ao estabelecer outra relação com o território, convertendo um lugar de controle em um espaço de circulação e presença pública. “Ao trazer essas obras para esse espaço, o museu afirma a centralidade dessas referências e estabelece uma relação direta com a cidade, ampliando o acesso e a circulação”, afirma a diretora-geral do MUNCAB, Cintia Maria.

“Padê Onã – Encontrar Caminhos”. Foto: Daniel Cerqueira
“Padê Onã – Encontrar Caminhos”. Foto: Daniel Cerqueira

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